"Não quero saber do lirismo que não é libertação"
Poética
Manuel Bandeira

A lata e a civilidade

>> sábado, 6 de março de 2010

Outro dia fui ao escritório regional da FUNASA levar minha mãe para fazer um desses recadastramentos que os aposentados são obrigados a fazer. Fiquei dentro do carro do lado de fora, ouvindo o rádio e esperando que lá dentro minha mãe resolvesse os trâmites. Ouvia no rádio uma voz feminina um tanto irritante que ficava a tagarelar sobre as ações da Assembléia Legislativa de Minas Gerais, com certeza uma reportagem gravada em Belo Horizonte e enviada para as rádios do interior. Enquanto ouvia a ladainha de projetos e seus autores a falarem como esses projetos mudariam completamente a vida das pessoas.

Fiquei ouvindo os relatos políticos e olhando a rua o vai e vem de uma rua que para os padrões de Pirapora pode ser considerada movimentada do outro lado do cruzamento em que estava há uma boca de lobo, um bueiro com a sua grade de proteção devidamente roubada. Não sei por que fiquei absorto hipnotizado pela voz esganiçada que saia dos alto-falantes de meu carro e observando aquele bueiro. Pensando em como aquele buraco aberto em um canto da rua é perigoso e útil para cidade. O tédio da espera nos coloca a pensar sobre cada coisa, não?!

Nesse momento noto pelo retrovisor uma bicicleta que carregava um jovem, com boné de tricô particularmente feio, ele pilotava despreocupadamente sua barra circular vermelha, maltratada pelo tempo e pela falta de conservação, entre uma pedalada e outra se refrescava com uma lata de refrigerante que confesso não reconheci a marca. Ele tinha a aparência de ser morador de um bairro mais pobre, resisto aqui a empregar o termo humilde por que mesmo com sua aparente falta de dinheiro havia algo de arrogante naquele jovem. Não me fixei muito em sua passagem ao meu lado e voltei a olhar o relógio, como se isso acelerasse a lida com a burocracia que se passava dentro do prédio público.

O rapaz passou pelo cruzamento ao melhor estilo “roleta russa” sem parar, apesar do intenso trafego de caminhões das inúmeras lojas de material de construção que se encontram nessa região. Nesse momento ele atirou a lata mirando justamente o buraco desguarnecido da boca de lobo, mirando, parecendo esforçar-se para acertar a lata lá.

Eu fiquei pensando por um instante na falta de civilidade e depois comecei a pensar que esse rapaz provavelmente, lida com problemas relativos a enchentes e sofre na pele as conseqüências daquele ato e fiquei ali paralisado pelas conjecturas e tendo aqueles momentos fatalistas em que dizemos é por isso que o país não vai para frente. Nesse momento um homem que aparentava ter mais de 70 anos, mas que poderia ter por volta de 50, com uma camisa aberta que expunha sua barriga desproporcional ao resto de seu corpo. Vestia uma bermuda preta, sandálias surradas e andava com o andar lento de quem luta com o sol de uma hora da tarde. Subia a rua em minha direção, enquanto eu ainda conjecturava ao som esganiçado da repórter.

Ao chegar ao cruzamento esse senhor com todo seu andar cansado, simplesmente agachou e recolheu a lata e a jogou numa lixeira e entrou em sua casa. E ai percebi que toda minha elucubração sobre a natureza dos atos e por ai vai não ajudou em nada a situação, toda a minha “revolta” cívica se tornou patética diante daquele homem que pensou certamente tudo que pensei, mas agiu e recolheu a lata.

Voltei para casa com isso na cabeça...

...Ele simplesmente recolheu a lata!

1 comentários:

Anônimo 11 de março de 2010 00:24  

Eu também recoho a lata Mário... mas reclamo pra car**** .
Pq se a gente não se esgolar, não tira estas pessoas pouco civilizadas de sua "zona de conforto"

Passo por chata, incomoda, irritante.. ok
mas pelo menos faço esta pessoas terem uns segundinhos de vergonha ..
Bjos da amiga e fã
Josy

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